Kindred: Laços de Sangue (Octavia E. Butler)




"Comecei a escrever sobre poder, porque era algo que eu tinha muito pouco"
Octavia E. Butler

Preconceito: O que mudou do século XIX para a década de 70 ou para hoje?

Kindred foi publicado pela primeira vez em 1979, vendendo milhões de cópias, consagrando a autora com a Dama da Ficção Científica. Em uma entrevista, Octavia E. Butler revelou que a inspiração para a obra veio após ouvir jovens negros minimizando a importância da escravidão.

A protagonista é Dana, de 26 anos e negra. Ela é casada com Kevin, um homem branco. Ambos são escritores e, até então, parecem levar uma vida normal em plena década de 70. O casal acabou de se mudar para um novo apartamento e, quando estão arrumando a biblioteca deles, Dana começa a sentir tonturas e acaba sendo transportada para próximo a um rio, onde uma criança se afogava. Ela o salva, mas a família do garoto não recebe bem o contato dela com a criança. Quando o pai aponta uma arma para ela, ela volta para seu apartamento.

Não leva muito tempo e ela é novamente transportada para perto da mesma criança. Entretanto, o tempo já passou e a criança já está maior. Ela percebe que é a mesma criança e, mais uma vez, está correndo perigo. Ela percebe que seus transportes estão atrelados ao fato da criança correr perigo. Ela acaba descobrindo que Rufus, a criança, é um antepassado seu, seu laço familiar, e ela precisa cuidar para que ele viva e ela possa existir em sua época.


Dana sempre é transportada de Los Angeles para uma fazenda em Maryland, no século XIX, ainda na cultura escravista do sul dos EUA. Ela vai sofrer na pele a desumanidade na forma de tratamento dos negros nesta fazenda, afinal, negra, século XIX, sul dos EUA e não ter uma carta de alforria em mãos não constituem um ambiente muito seguro para ela. E a autora não poupa o leitor dos detalhes dos castigos impostos, os abusos psicológicos e físicos, assim como das condições de trabalho.

O livro todo é bem difícil de absorver, ainda mais nas cenas que detalham tanto o sistema escravista da época, pois, incomodam demais. Para alguns, o livro pode parecer mais do mesmo quanto aos assuntos tratados (viagem no tempo e escravidão), só que é impossível não sensibilizar-se diante de tantas atrocidades praticadas contra seres humanos. E o mais interessante é como a autora consegue fazer a protagonista não deixar-se sucumbir à cultura da época e mostra como é que o passado e o futuro podem manifestar um no outro.

A leitura toda causa agonia, aperto no peito e falta de ar por tudo o que acontece, afinal, é bem fácil sentir empatia pela Dana, uma mulher forte e determinada, que perde toda a sua voz e liberdade no mundo ao viver em uma época com atitudes tão cruéis.

E mesmo com um assunto tão grave e forte, a leitura é bem dinâmica, pois o livro possui muitos diálogos incríveis. Enfim, um livro maravilhoso para tratar do preconceito com seriedade, através dos olhos de quem esteve nesta realidade.

E voltando à pergunta do início, hoje em dia, podem não existir mais os açoites do século XIX, mas a dor do preconceito continua a mesma, senão pior, pois dói na alma. 

"Todas as lutas são, essencialmente, lutas sobre poder"
Octavia E. Butler

Beijos,



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