Quarto de Despejo - Diário de uma favelada (Carolina Maria de Jesus)



Sinopse

No livro, Carolina Maria de Jesus, uma favelada, escreve um diário narrando o seu dia a dia nas comunidades pobres da cidade de São Paulo. Em sua narrativa, Carolina descreve a dor, o sofrimento, a fome e as angústias dos favelados. Seu texto é considerado um dos marcos da escrita feminina no Brasil. Quarto de Despejo foi traduzido para mais de treze idiomas. O diário descreve as vivências da autora no período de 1955 a 1960. (Fonte: Skoob)

Personagem

A personagem, Carolina, é a própria autora dessas linhas. Uma mulher forte, dedicada aos seus filhos e que ama ler e escrever. É um ponto fora da curva na favela do Canindé, com um esclarecimento incrível da situação e das pessoas que ali vivem. Consegue enxergar o efeito que a vida na favela, a fome e a necessidade causam nas pessoas. A consciência dela é tão grande a respeito dessas coisas que ela mesma não deixa que a afete.

Enredo

A obra é composta por entradas de diário escritas por Carolina Maria de Jesus quando vivia na favela do Canindé, no final da década de 50. Ela foi encontrada pelo jornalista Audálio Dantas, responsável por escrever uma matéria sobre a favela que estava crescendo desenfreadamente às margens do Rio Tietê. Em visita ao local, ele conhece Carolina que, na época, já possuía cerca de 20 cadernos com seus diários, com a visão de dentro de uma favela, com muito a dizer.

Nestas entradas, ela coloca que a fome várias vezes em uma mesma página, como um atriz coadjuvante de sua vida, representando a parte trágica e marcante. E, para enfrentá-la, Carolina trabalhava como catadora de lixo e vendia o que pudesse para conseguir alguns cruzeiros para poder colocar alimento na mesa a seus filhos. Poderia estar chovendo, com dores no corpo, doente ou mesmo com muita fome, lá estava ela com uma força inenarrável fazendo seu trabalho para superar a miséria e prover o mínimo de bem-estar aos seus filhos. E, acima de tudo, sempre alegre e cantando sambas de sua própria autoria.

"E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual - a fome! - Pág. 27

O jornalista preservou a grafia de Carolina, então, muitas palavras estão escritas fora da norma ortográfica, repleto de marcas de oralidade. A edição limitou-se a pontuação ou a palavras que dificultavam a compreensão do leitor. E, claro, não são todas as entradas do diário que estão nesse livro. Como Dantas mesmo menciona no livro, ficaria muito repetitivo e cansativo caso publicasse 100% do livro, afinal, o tempo todo, infelizmente, a fome é mencionada.



Carolina possuía uma visão muito crítica da política do país na época, opinando sobre os políticos, comparando uns com os outros (é bem divertido!) e estava sempre atualizada do que acontecia neste cenário. Sério, estava sempre muito bem informada sobre o país através de jornais impressos.

"Como é horrível um filho comer e perguntar: "Tem mais?". Essa palavra "tem mais" fica oscilando dentro do cerebro de uma mãe que olha as panela e não tem mais.... Quando um político diz nos seus discursos que está ao lado do povo, que visa incluir-se na política para melhorar as nossas condições de vida pedindo o nosso voto prometendo congelar os preços, já está ciente que abordando este grave problema ele vence nas urnas. Depois divorcia-se do povo. Olha o povo com os olhos semi-cerrados. Com um orgulho que fere a nossa sensibilidade." - Pág. 34

E dessa forma, a fome vai aparecendo ao longo da vida de Carolina, de seus filhos e das demais centenas de pessoas que moravam na favela. É triste, é dolorido e visceral. Se apresenta nua e crua a miséria a qual o povo da favela era submetido e que, muitos, acabavam se conformando.

Um exemplo de força, superação e não se vitimizava pela sua condição. Ela ia a luta, mostrando a todos que era capaz de vencer, que era mais forte que as circunstâncias. Mostra a nós, também, que não conformar-se e resistir é chave para se conseguir o que se almeja.

Minhas Impressões

Mais uma vez, um livro que li sem saber de nada antes. Apenas vi muitas pessoas lendo e fiquei curiosa, ainda mais depois que uma prima muito querida falou de O Diário de Bitita, também da mesma autora, não tive dúvidas, busquei o livro e o li.

Esse livro foi mestre em me fazer repensar sobre muitas coisas. Principalmente quando a gente acaba deixando de fazer algo devido a uma ínfima dorzinha ou um cansaço nem tão intenso. O livro me passou força e mais determinação, que a gente é capaz de fazer muito por nós e por quem amamos. Além disso, trouxe para a minha vida a importância de estar sempre lendo e aprendendo algo. "Mas, Bel, você já não lê vários livros?". Sim, gente, eu leio e bastante. Entretanto, de que adianta ler, ler e ler se ficamos sempre na mesma pauta, lendo sobre as mesmas coisas? A gente fica no mesmo lugar, não é? Então, diversificar leituras, suas fontes e assuntos é importantíssimo para melhorar nossa visão de mundo, empatia e conhecimento. Clichê? Sim! Mas eu estava prestes a ficar no mesmo lugar.

A simplicidade do linguajar de Carolina me apresentou um mundo que eu não fazia ideia que havia existido (favela do Canindé) e da intensidade do sofrimento e mazelas que nele existem. E nem por tudo isso ela se deixava abater e foi à luta, sempre escrevendo seus pensamentos, opiniões, com a mais forte esperança de que um dia fosse lida e que a realidade de dentro da favela fosse vista e compreendida. E ela conseguiu atingir seu objetivo, pois, ELA ACREDITAVA!

Me diverti, me compadeci e quase chorei durante a leitura, ela sabe usar as palavras de forma muito simples e rica, e vai mostrando, entre um dia e outro, as dificuldades de ser negra e pobre. E mesmo assim, ela não se fazia de vítima. Uma outra escritora que achei tão incrível quanto (que ainda não li nada, shame on me!) é a Conceição Evaristo. Recentemente, foi publicada uma entrevista no site da BBC que mostra a mesma situação, da dificuldade em ser reconhecida que ainda acontece nos dias de hoje. É muito tempo para ainda estarmos na mesma situação, não é mesmo? Década de 50 até 2018... Não dá mais... Vejam abaixo:

"BBC Brasil - O movimento negro combate o discurso da meritocracia. A senhora conseguiu estudar a duras penas, tendo que trabalhar como babá, faxineira, vendedora de revistas quando jovem. O quão difícil foi?

Evaristo - O discurso da meritocracia e os exemplos de pessoas negras que acabam se constituindo em uma exceção são perigosos. Porque cria-se esse imaginário de que, se a pessoa estudar, trabalhar, se esforçar, ela consegue. Isso é mentira.
Conheço várias pessoas que estudaram, trabalharam, lutaram e não conseguiram. Ficaram pelo caminho. Esse discurso passa a impressão de que as pessoas que não conseguem são preguiçosas. Não é isso. É um esforço sobre-humano.
E, sem sombra de dúvida, eu queria ter conseguido as coisas com muito mais facilidade. Volto a falar: Eu tenho 71 anos. 71 anos não são 71 dias. É claro que estou feliz com o reconhecimento, mas essas conquistas se dão depois de muito tempo de luta. Podia ter sido um pouquinho mais fácil."
Fonte: BBC - Brasil

Agora é o momento de manter a luta, de todos terem acesso e a oportunidade de mostrar ao mundo a que vieram. Eu conheço e tenho certeza que você conhece alguém que faça algo legal, mas nunca é reconhecido, seja homem, mulher, negro, branco, pardo etc. Não podemos permitir que essa falta de reconhecimento se estenda por mais décadas... já é o suficiente, já passou da hora.

Para finalizar, deixo uma frase da Carolina, publicada pelo Instagram "Mulheres que escrevem" (Sigam esse perfil, é muito perfeito!):



Por favor, leiam esse livro e façam um favor a suas vidas.

Beijos,


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