O Alforje (Bahiyyih Nakhjavani)



Olá pessoal, tudo bem com vocês?
O livro de hoje é o incrível "O Alforje" da autora iraniana Bahiyyih Nakhjavani, que foi a indicação feita por Alberto Manguel para o livro de fevereiro da TAG Curadoria. Já digo que o livro é incrível. Venha conferir!


Sinopse

Ao contrário do que se diz, o deserto é um território fértil. Ao menos para Bahiyyih Nakhjavani, que, a partir de uma trama complexa, faz convergir nas areias árabes um grupo de personagens que têm suas trajetórias costuradas por um misterioso alforje. Uma noiva que viaja para encontrar o futuro marido, um padre em peregrinação, um beduíno de alma livre e uma escrava falacha são alguns dos retratos que a autora pinta com maestria e profundidade. Ainda que tenham origens, crenças e desejos muito diferentes, todos os viajantes terão a vida transformada pelas escrituras sagradas. (Fonte: Quarta Capa da Edição)

"Um retrato profundo da nossa humanidade, onde quer que nos encontremos. Especialmente hoje, quando os conflitos são cotidianos, essa obra afirma a possibilidade da convivência" - Alberto Manguel (Verso do Marcador do Kit da Edição)

Personagens

O livro é narrado sob o ponto de vista de nove personagens a respeito de um mesmo dia, cada um com sua forma de enxergar o mundo, a vida e a religião. São eles, nesta ordem:
  • O ladrão;
  • A noiva;
  • O líder;
  • O cambista;
  • A escrava (este foi o ponto de vista que eu mais amei no livro!);
  • O peregrino;
  • O sacerdote;
  • O dervixe;
  • O cadáver.
O maior núcleo é o de uma caravana que segue a rota muito utilizada por peregrinos e comerciantes que liga Meca a Medina. Muitos desses personagens estão nesta caravana, que é a de uma noiva e de um cadáver, muito cobiçada por estar transportando riquezas desses dois personagens.


Enredo

No deserto do Oriente Médio, no século XIX, na estrada entre Meca e Medina, o livro começa sob o ponto de vista de um ladrão Beduíno que busca, mais que tudo na vida, a liberdade. 

"Para o Beduíno, a liberdade era o ar do deserto que ele respirava. Esse era o espaço aberto do possível, entre o conhecido e o negado, o espaço desabitado da expectativa entre fatos aparentes. Ele havia nascido com essa herança de vazio; um legado que ganhara de graça. Ainda menino, sabia o valor daqueles sentidos que tinham de ser imaginados como reais. Porém, ele ainda precisava definir, por si mesmo, aquela liberdade" - Pág. 17

Em sua busca pela liberdade, pelo deserto, ele encontra um mercador que estava acompanhado de seu escravo que usava uma pérola pendente em sua orelha esquerda e um jovem que o ajudava com seu camelo. O mercador para em um poço no deserto para fazer suas abluções e suas preces matinais. Neste momento, ao deixar o alforje de lado para cumprir seus deveres religiosos, os olhos do ladrão cresceram pelo alforje, então ele se aproveita para roubá-lo, esperando que houvesse a Fortuna que ele tanto esperava.

O mercador acaba não reagindo ao roubo, deixando que o ladrão o levasse. Entretanto, o escravo parte no seu encalço, mas o mercador o impede, pedindo que o deixasse seguir com sua aquisição.

"Embora pudesse ver, do outro lado do vale, perto do poço, que os três viajantes não haviam saído de seu local de orações, ele ainda se sentia perseguido. Eles tinham deixado que ele fosse embora e, mesmo assim, tinha a sensação de que havia sido capturado para sempre" - Pág.37

Esta atitude do mercador mexe demais com os valores, pensamentos e conflitos internos do ladrão, o que será responsável por seu destino ao final de seu capítulo. E é através deste ladrão que o alforje entra na vida dos demais personagens do livro, sendo como uma forma de proporcionar a redenção, salvação ou mudança na vida deles, ou até mesmo trazendo a morte.



Os mesmos eventos são narrados pelos nove personagens, no momento em que a caravana da noiva e do cadáver estão em meio ao deserto, sendo observados por bandoleiros e prestes a serem fustigados por uma tempestade de areia. E o alforje circula neste meio como algo divino na vida de cada um, trazendo o sinal que cada um desejava.

Não tenho conhecimento suficiente para discorrer aqui sobre a Fé Bahá'í, mas, de forma simplificada, é uma religião monoteísta que tem por tese a igualdade da humanidade, seja racial, cultural e espiritual, sendo Deus apenas um só, apenas sendo representado por mensageiros diferentes em cada fé. É a Fé Bahá'í que a autora vai utilizar como base para nos contar esta história incrível.



Alguns aperitivos do livro para que vocês possam entender a capacidade desta mulher em contar histórias sem maiores pretensões e a diversidade de crenças presentes no livro:

Em "A Escrava":
"E as superstições existiam em profusão. Ela estava aprisionada na antítese de sua própria constituição, contradições supersticiosas que anulavam umas às outras, como uma febre acompanhada por calafrios. Ao longo dos sempre adiados preparativos para o casamento, a Escrava remoía em pensamentos a semelhança que havia entre aquilo e os preparativos para a morte" - Pág. 170

Em "O Peregrino":
"(...), pois embora tivesse perdido quase todos os dentes, ainda tinha fé. Apesar do medo ter agarrado sua garganta na tempestade de areia, seus olhos continuavam brilhantes e em busca de inspiração. A Rota da Seda continuava à sua frente, por todo o trajeto para o Saara. Mas ele sabia que, se os desertos da Arábia não lhe mostrassem o "Caminho", ele não teria mais nada, senão o deserto do desespero, para explorar antes de morrer. E seu coração estava pesado, ao pensar no futuro de seu povo" - Pág. 208

Em "O Dervixe":
"Eram únicos, pois ninguém jamais vira tamanha qualidade na arte da poesia. Os que leram aquilo afirmaram que sua beleza era capaz de despertar o terror na alma" - Pág. 312

Em "O Cadáver":
"Portanto, essa é nossa história, ponderou o Cadáver, recostado em frágil dissolução na parede norte da ruína. Uma história de podridão delicada e de sutil decadência, que dia a dia desenrola seu carretel. Uma história de confiança, uma história de mudança, uma história de desapego e vínculo, como o perfume no deserto, que perdura na memória de homens saturados de si mesmos. E, quando alargamos os passos, onde os odores desaparecem? Onde estamos quando o cheiro desapareceu? Disseram que ele devia ser reverenciado com um enterro em Baqr, porque tinha morrido em sua última peregrinação. Então, esse era o lugar onde aquilo iria acabar? Então, o que era o começo?" - Pág. 326 (Sério, essa passagem me arrepia cada vez que eu a leio!)

Minhas Impressões

O que dizer deste livro? Sério. Somente pela sinopse, não sei se seria um livro que eu compraria por espontânea vontade em uma livraria. Mas, ainda bem que temos a TAG, não é mesmo? 

O início do livro já me fixou de pronto e eu tinha vontade marcar toda e qualquer passagem, pois, a autora tem um jeito tão lindo de contar histórias, com escrita incrivelmente poética e imersiva. Ela vai utilizar como base para a mensagem de sua história a Fé Bahá'í, como forma de mostrar que o Deus para todos é o mesmo e que a religião é algo relativo a cada um. É a opinião que sempre tive a respeito de religiões, me referindo a elas como um caminho que cada ser humano escolhe seguir, todavia, todos esses caminhos darão no mesmo destino: Deus.

Com isso, no meu entendimento do livro, interpretei o alforje como sendo esse algo divino na vida de cada pessoa que segue por um caminho diferente para chegar a Deus. Uma metáfora para uma mensagem maior e divina, que cada um toma para si e molda sua vida e sua crença.



Além da religião e da fé, o que mais marcou em minha experiência foi a característica sensorial do livro. O livro todo se passa no deserto e eu duvido que você que ler esse livro não vai sentir o calor, a sede e até mesmo a areia atingindo o seu rosto, fazendo seus olhos se fecharem. E o cheiro azedo do cadáver? Sim, você vai sentir esse cheiro também. Em contrapartida, na caravana da noiva, aficcionada por banhos, você vai sentir o aroma fresco de essências perfumadas e leves que farão você relaxar por completo. Tanto que o mimo o mês é uma essência floral/cítrica como uma extensão olfativa à história. A essência deverá ser apreciada somente ao chegar à página 75 do livro. Façam isso, é muito mais enriquecedor para sua leitura.

Por fim, considero o livro uma das melhores leituras até o momento. Sinto que poderia ter aproveitado ainda mais caso conhecesse a Fé Bahá'í e mais sobre seus preceitos. Mas valeu muito a pena e recomendo que se permitam essa experiência de leitura, será única.



Nota da Leitura: 5.0 (de 5.0)


Dados da Edição:
Livro: O Alforje
Autor: Bahiyyih Nakhjavani
Editora: Dublinense / TAG - Experiências Literárias
Número de páginas: 336
Ano de publicação: 2017

Beijos, Bel.

Share:

0 comentários

Obrigada pelo seu comentário! Responderei assim que possível!