Gente Pobre (Fiódor Dostoiévski) #dostôesselindo




Olá, pessoal, tudo bem com vocês?

Finalmente, começo com as resenhas dos livros do Dostôzinho, do projeto que a Isa do Lido Lendo criou para ler a obra dele em ordem cronológica. O primeiro já é um primor. Venha ver o que achei da leitura!

Sinopse

Primeiro romance de Dostoiévski, 'Gente Pobre' (1846) não é apenas um prenúncio do que o autor de 'Crime e Castigo' faria no futuro. Nele já se encontra um escritor com domínio pleno do seu ofício, a ponto de Bielínski, principal crítico da época, ver na obra "mistérios e caracteres da Rússia com os quais ninguém até então havia sequer sonhado" e "a primeira tentativa de se fazer um romance social" no país.

Partindo das experiências de Púchkin, em 'O Chefe da Estação', e Gógol, em 'O Capote', que deram ao homem comum uma nova roupagem literária, Dostoiévski criou uma narrativa epistolar que subverteu o gênero por completo e foi imediatamente aclamada pelo público, fazendo de seu autor, praticamente da noite para o dia, um escritor consagrado.

Pela troca de cartas entre Makar Diévuchkin, funcionário menor de uma repartição pública de Petersburgo, e sua vizinha Varvara Alieksiêievna, uma jovem órfã injustiçada, o leitor acompanha de perto as pequenas alegrias e os constantes sofrimentos dos dois personagens. Com seu talento fora do comum, Dostoiévski explora a fundo as variações de tom e tratamento, de saltos e encadeamentos na ação, para dar voz a um universo comovente de afetos e valores, que a tradução de Fátima Bianchi soube tão bem captar.


Personagens

Temos dois personagens principais, os quais trocarão cartas entre si. Primeiro, Makar Diévuchkin, funcionário de uma repartição pública e ocupa um cargo bem baixo. Vive com dificuldades financeiras, mas faz de tudo para ajudar Varvara Alieksiêievna, que é órfã e mora bem próximo a Makar. Os dois são parentes bem distantes.

Enredo

Em seu primeiro livro, Dostoiévski já segue a vertente do romance social, na forma epistolar, e vai nos apresentar uma série de cartas trocadas entre Makar Diévuchkin e Varvara Alieksiêievna, suprimindo a voz do narrador e, desta forma, dando voz à classe dos menos privilegiados.

Mesmo sendo vizinhos, os dois preferem manter sua comunicação por cartas para evitar que a vizinhança faça comentários a respeito dos dois. Makar respeita muito Varvara. 

"Hoje até me entreguei a sonhos bem agradáveis, e meus sonhos foram o tempo todo com você, Várienka. Comparei-a com um pássaro do céu, criado para a alegria dos homens e adorno da natureza. (...) Agora é primavera, por isso os pensamentos são sempre tão agradáveis, aguçados, engenhosos, e os sonhos são ternos, sempre cor-de-rosa." - Pág. 13

Ao acompanhar a troca de cartas, vamos descobrindo o passado e o presente da vida de cada um, seus sentimentos, opiniões e os desejos que querem para a vida, bem como, suas lamentações pela miséria em que vivem, tendo que abrir mão de muitas coisas para poderem vencer cada dia.

Os dois eram muito pobres e mal conseguiam pagar o aluguel dos locais onde viviam. Makar, mesmo tendo um emprego em uma repartição pública, ele mal tinha dinheiro para poder comprar suas roupas. Esta situação também foi apresentada no conto "O Capote" do Gógol. E quando Makar ganhava algo, ele ficava tão feliz que corria fazer algum agrado a Varvara, como na cena que ele manda para ela um pacotinho com balas e ambos ficam muito felizes com esse pouco.

Makar sempre menciona em suas cartas que está em uma constante busca por seu estilo de escrita. E, se compararmos o início e final do livro, vemos que ele conseguiu crescer notavelmente, pois as cartas ficam muito mais concisas e coerentes, mais livres de oralidades do personagem. 

A miséria em que vivem contrasta com a riqueza e nobreza de sentimentos dos dois personagens. É como se os sentimentos fossem a única forma de sustento de cada um, já que não tinham mais nada. 

Dostoiévski não deixa nada simplista o retrato que faz da classe dos personagens, mostrando-os muito mais complexos do que aparentam. Mostra que a classe que recebe a generosidade dos mais abastados também é capaz de oferecer essa generosidade para com o próximo na forma de apoio e bons sentimentos, ou seja, como uma forma de mitigação da dor da miséria. Ele nem ao menos chega próximo de vitimizar essa classe como receptora apenas de infortúnios da vida.

Alguns aperitivos do livro... vejam como Dostoiévski já escrevia logo em seu primeiro livro:

"A literatura é uma coisa boa, Várienka, muito boa; disso me inteirei anteontem através deles. É algo profundo! É algo que edifica e fortalece o coração das pessoas, e há muito mais coisa, ainda escrita, sobre tudo isso num livro lá que eles têm. Muito bem escrito! A literatura é um quadro, ou seja, em certo sentido um quadro e um espelho; é a expressão da paixão, uma crítica tão fina, um ensinamento edificante e um documento" - Pág. 74

"E todo mundo sabe, Várienka, que uma pessoa pobre é pior que um trapo e não é digna de nenhum respeito da parte de ninguém, seja lá o que for que escrevam! eles mesmos, esses escrevinhadores, podem escrever o que for! — para o pobre vai ficar tudo como sempre foi. E por que vai ficar na mesma? Porque num homem pobre, na opinião deles, tudo deve estar virado do avesso; porque ele não deve ter nada de secreto, nenhuma vaidade que seja, de jeito nenhum!" - Pág. 104

"Ao conhecê-la, em primeiro lugar, comecei a me conhecer melhor e comecei a amá-la; até então, meu anjinho, eu era solitário, era como se estivesse dormindo nesse mundo, ao invés de viver" - Pág. 128


Minhas Impressões

Quando decidi participar do projeto Dostô esse lindo, já fui com o pensamento de que eu teria trabalho para ler os livros, pois, já li Crime e Castigo e não foi nada fácil. Nós, leitores, e esse medo da literatura russa!

Quando comecei a leitura de Gente Pobre, que surpresa! Foi super tranquilo de ler e devorei, pois, tudo o que eu queria era saber mais desses dois personagens e o que seria da vida de cada um, afinal, o tempo todo a miséria aparece de uma forma ou de outra em meio às lamentações dos dois. 

Essa forma de livro (epistolar) me passou uma impressão de que os personagens eram reais. Me parecia que, a qualquer momento, encontraria um dos dois pelas ruas.

A impressão que tive na troca de cartas é que Makar oferecia muito mais atenção e disposição que Varvara. Ele se mostrou muito inocente muitas vezes, o que dava margem para Varvara aproveitar-se um pouco de sua boa vontade. Mas, eu acho que isso era apenas devido à sua imaturidade. Enfim, estava bem claro que na relação entre os dois, Makar era o mais presente, tanto que suas cartas eram as mais longas e, muitas vezes, havia duas cartas seguidas e uma resposta curta de Varvara. Achei esse comportamento bem ingrato.

Logo de primeira, Dostoiévski já retratou uma humanidade imensa do "homem pequeno", com grande profundidade psicológica. Isso que ele tinha pouco mais de 20 anos. O gênio já estava lá.

Não vou comentar o final do livro para não dar spoiler, mas fiquei bem triste, afinal, além da miséria material que permeia o livro todo, vamos nos deparar com a miséria sentimental. Comentem aqui se perceberam isso também.

Nota da leitura: 5.0 (de 5.0)


Beijos,


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2 comentários

  1. Amei seu texto! É tudo muito bem organizadinho, e você escreve muito bem. Eu também estou acompanhando e amando esse projeto da Isa. Minhas impressões de leitura são bem semelhantes às suas. Continue escrevendo sobre os livros ��

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    1. Obrigada pela visita e pelo comentário! Esse projeto é incrível, não é? E continuarei a escrever, sim! Em breve, O Duplo estará por aqui! Beijos!

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Obrigada pelo seu comentário! Responderei assim que possível!