Retorno a Brideshead (Evelyn Waugh)


Sinopse

Obra decisiva de Evelyn Waugh, o mais mordaz dos escritores ingleses, Retorno a Brideshead narra as lembranças do capitão Charles Ryder, que durante a Segunda Guerra reencontra a mansão dos Bridehead, cenário de momentos cruciais de sua vida. Da teia de recordações emerge o retrato magistral de uma família em processo de desagregação. Escrito sob o impacto da barbárie nazista e da aliança de países cristãos ocidentais com a Rússia Comunista - algo diabólico para um conservador como Waugh - , o romance pode ser resumido numa frase: este mundo é feito de mudança e decadência. Com uma galeria de personagens que se deixam levar, na mesma medida, por instintos nobres e pelos sentimentos mais mesquinhos, Retorno a Brideshead tece um painel inigualável da aristocracia inglesa do entreguerras, quando o Império Britânico estava no auge e, ao mesmo tempo, à beira do declínio definitivo. (Fonte: Quarta capa da edição)

O livro foi indicado por Luis Fernando Veríssimo para a edição de Janeiro da TAG - Experiências Literárias:

"Waugh era uma figura contraditória. Um carolão convertido ao catolicismo que ao mesmo tempo escrevia livros de sátira política e social. A melhor prosa do inglês que eu já li foi a dele, que é um dos grandes estilistas da língua inglesa" - Luis Fenando Veríssimo


Personagens

O protagonista, Charles Ryder, é um Capitão que está lutando na Segunda Guerra Mundial e também será o responsável por narrar todo o livro, afinal, tratam-se de suas memórias da época que conheceu Sebastian Flyte e sua família, assim como a mansão Brideshead. Sebastian é o personagem que faz com que tudo aconteça na vida de Charles, exercendo sua influência sobre a vida deste.

Sebastian é um personagem que Waugh vai apresentar de forma infantilizada, que carrega um urso por todos os lados, chamado Aloysius, com quem conversava e dizia que este urso brigava com ele e também o irritava. Vejam:

"É o segundo filho do marquês de Marchmain. O mais velho, o conde de Brideshead, se formou no ano passado. Ele era bem diferente, um cavalheiro bastante sossegado, até parecia um velho. Sabe o que lorde Sebastian queria? Uma escova de cabelo para seu urso; uma com cerdas bem duras, não para escovar seus pelos, mas para ameaçá-lo com uma sova quando ele o aborrecer. Comprou uma muito boa, em marfim, e vai mandar gravar o nome do urso: 'Aloysius'" - pág. 44

Julia, irmã de Sebastian, é outra personagem com presença constante no livro, sendo responsável por vários questionamentos e sentimentos na vida de Charles e também a que mais se preocupava com a situação de Sebastian (talvez porque em muitos pontos são parecidos? muito bom para refletir).

Há outros personagens importantes na história, como o conde de Brideshead, o irmão mais velho de Sebastian e também a irmã mais nova, Cordelia, apresentada como nada bonita, entretanto, a mais sensata e sóbria. Os pais de Sebastian também exercem sua influência no desenrolar de alguns fatos. E não poderia deixar de mencionar dois personagens que estão em todos os lugares, são Boy Mulcaster e Anthony Blanche.

"Tem aquele Sebastian Flyte, de quem você parece inseparável. Não sei, talvez ele seja um bom sujeito. O irmão dele, Brideshead, era um camarada muito correto. Mas esse seu amigo me parece muito esquisito, e as pessoas falam dele. Bem, eles são uma família esquisita. Os Marchmain vivem separados desde a guerra. Ninguém entendeu, eles pareciam tão dedicados um ao outro. Veio a guerra, porém, o marido foi para a França com seu regimento e nunca mais voltou. Foi como se tivesse morrido. A mulher é católica; por isso, não pode se divorciar; ou então não quer, imagino. (...)" - pág. 59

E, por fim, o personagem mais importante no livro todo, em minha opinião, depois de Ryder, é o catolicismo.





Enredo

O livro se inicia em meios à Segunda Guerra, quando o regimento comandado pelo Capitão Charles Ryder busca um local para manter uma base. O local escolhido é a mansão de Brideshead. E apenas a vista de longe do casarão é capaz de despertar as memórias da juventude de Ryder.

Esta visão é o gatilho para que Ryder nos conte muitas memórias vividas com Sebastian, Julia e os demais membros da família no período entreguerras.

Ryder conhece Sebastian quando vai para a faculdade em Oxford e, a partir de então, tornam-se muito próximos. Em um estalar de dedos, Charles passa a viver essa influência que Flyte exerce em sua vida, frequentando festas, virando a noite bebendo e gastando dinheiro, assumindo um estilo de vida que nunca havia vivido até então. Ryder insiste várias vezes em conhecer a família de Sebastian, entretanto, este sempre se esquiva com o argumento de que Charles passará para o lado deles assim que os conhecerem. Mas, na verdade, é Sebastian o personagem problemático que possui dificuldades em se encaixar no ambiente familiar. Assim, no momento em que Charles consegue, de fato, conhecer e se aproximar da família de Sebastian, este se afasta de todos e acaba por afundar-se no alcoolismo. A partir deste ponto, Sebastian se afasta inclusive da história, aparecendo vez ou outra, sempre trazendo problemas.

A relação entre Charles e Sebastian flutua entre o discreto e o explícito, um amor percebido por outros que estão em contato com eles e, claro, muito perceptível por nós, leitores.

Sobre Sebastian, por Charles:

"Ele era arrebatador, com aquela beleza andrógina que na extrema juventude clama pelo amor e fenece ao primeiro vento frio" - pág. 47

"Esse dia marcou o início de minha amizade com Sebastian, e assim aconteceu de, naquela manhã de junho, eu estar deitado a seu lado, à sombra dos grandes olmos, observando a fumaça que saía de seus lábios desaparecer entre os galhos" - pág. 50

Lindas passagens, não?

Entretanto, como o foco de Charles era desenvolver sua carreira como artista, Sebastian acaba por ficar em segundo plano em sua vida e o fato de ter se afastado de todos colabora para que Charles siga sua vida casando-se e formando uma família. Mas isso tudo não quer dizer que Charles tenha se encontrado de fato (leia para descobrir seu fim ;) ).

E a família de Sebastian é a representação de uma família aristocrata decadente e desintegrada no século XX, uma forma de Waugh criticar a sociedade da época, com toda a sua sátira, a forma que viviam, apresentando-se superiores a tudo e todos, alheios a tudo o que acontecia e somente preocupados em tomar seus chás, bebidas e jantares, vestindo-se de forma extravagante para nada. E é com esse estilo de vida, com gastos e vida fúteis, que a família acaba, tendo que vender bens para sanar dívidas. Enfim, a vida da família se resume a aparências. Com mãe preocupada com religião, o pai morando em outro país já com outra mulher, a irmã mais nova, Cordelia, viajando pela Europa auxiliando vítimas da guerra e Julia frustrada com o seu destino, e, somado a tudo isso, a decadência financeira da família. Cada membro segue (ou perde) seu rumo, assim como Sebastian, em um caminho sem volta.


Minhas Impressões

O livro é escrito de forma elegante e a escrita de Waugh é muito requintada, fazendo com que a experiência da leitura seja, na maioria das vezes, um desafio. Por que? Esta leitura foi mais lenta do que as que costumo fazer, pois, não conhecia muitas palavras (isso foi ótimo, aprendi muito vocabulário!) e precisava recorrer ao dicionário muitas vezes e, também, havia muita informação em todas as páginas, então, era necessário um pouco mais de paciência para compreender o que autor estava querendo dizer, referências à época, personalidades, enfim, o livro é literalmente rico em contextualização, ambientação e história. Foi o que eu mais gostei nesta experiência, pois, é um livro que dá uma bagagem cultural muito satisfatória ao seu término.

Em contrapartida a essa riqueza cultural, não foi um livro que me conquistou por completo. Não consegui me conectar com nenhum personagem para falar que eu gostei ou me identifiquei, aliás, achei todos eles bem enfadonhos e chatos. Mas talvez seja esse o objetivo do autor em nos mostrar como era monótona e fútil a vida dessas pessoas, que não buscavam nada de útil para fazer no dia a dia e só se preocupavam com aparências, e a consequência disso tudo em suas personalidades.

Não é um livro de tirar o fôlego, afinal, não acontece nada! São apenas memórias que servirão para que Waugh critique a sociedade da época e com muito sarcasmo. Neste ponto, ele atingiu seu objetivo com louvor!

O autor é um seguidor fervoroso do catolicismo, então, ele vai inserir a religião em seu livro como algo que influencie a vida os personagens, moldando suas decisões em cada passo. Parte dos personagens são muito católicos, outra parte nem tanto e outros mal se importam com religião. Mas, enxerguei que, para alguns personagens, a religião foi a forma de redenção para suass vida, em busca de algo maior. Penso que o autor possa ter incluído isso para registrar o que a religião também representou para ele.

Um ponto negativo no livro foi o fato do Sebastian perder sua força na história e perder-se no mundo, em busca de algo que fizesse sentido em sua vida. Eu gostaria muito que fosse mais desenvolvido até o final da história, mas, Waugh deve ter tido seus motivos para tal e eu acabei deixando passar o seu significado.

Enfim, foi um livro que eu gostei de ter lido e conhecido, principalmente pelo contexto histórico, mas não foi capaz de me conquistar e mudar a minha vida. Vale a pena dedicar seu tempo a lê-lo.


Nota da Leitura: 3.5 (de 5.0)

Dados da Edição:
Livro: Retorno a Brideshead
Autor: Evelyn Waugh
Editora: Cia. das Letras / TAG - Experiências Literárias
Número de páginas: 390
Ano de publicação: 2018

Beijos, Bel.

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