O estranho caso do cachorro morto: Uma forma leve de entender Asperger



Sinopse

Christopher John Francis Boone sabe de cor todos os países do mundo e suas capitais, assim como os números primos até 7.507. Gosta de animais mas não entende nada de relações humanas. Adora listas, padrões e verdades absolutas. Odeia amarelo e marrom e, acima de tudo, odeia ser tocado por alguém. Christopher Boone tem 15 anos e sofre de síndrome de Asperger, uma forma de autismo. Um dia, Christopher encontra Wellington, o cachorro da vizinha, morto no jardim. É acusado de assassinato e preso. Depois de uma noite na cadeia, decide descobrir quem matou o animal, e, inspirado no seu personagem fictício favorito, o impecavelmente lógico Sherlock Holmes, escreve um livro, relatando suas investigações. O resultado é "O Estranho Caso do Cachorro Morto" é o livro de estréia do inglês Mark Haddon. A história do garoto autista que sabe tudo sobre matemática e quase nada sobre seres humanos já conquistou um dos mais importantes prêmios estrangeiros: o Whitbread 2003, na categoria livro do ano. Para o Times: "Este livro é original e envolvente. Na história de mistério e descobertas, Haddon convida o leitor a embarcar ao lado de Christopher em uma emocionante viagem que vai virar o mundo do jovem de cabeça pra baixo." (Fonte: Skoob)

Personagens

O narrador do livro é Christopher, de 15 anos, diagnosticado com síndrome de Asperger, dentro do espectro autista. É brilhante em matemática e lógica, não gosta de tocar ou comer qualquer coisa que seja amarelo ou marrom e extremamente atento a detalhes. Também não gosta de ser tocado e apresenta vocalizações repetitivas, que ele sempre menciona como "gemer".

Ele não se isola da sociedade por completo, pois, frequenta uma escola especial, ele se refere por nome a alguns outros alunos, mas não são pessoas próximas a ele. Em contrapartida, temos a professora Siobhan, que tem conhecimento de como relacionar-se com pessoas na condição de Christopher e ela é a única que realmente compreende as particularidades dele e faz as coisas do modo como ele gosta. Como consequência, ele é capaz de manter diálogo com ela.

Dentre os indivíduos que estão em seu círculo de relacionamento, estão: seu pai, que é quem, no momento da história do livro, cuida de Christopher, atendendo suas necessidades específicas, mas ainda nota-se que não é uma pessoa que está 100% preparada para essa situação, porém, ele se esforça bastante; e sua mãe, morta, que é uma pessoa totalmente sem estrutura para lidar com sua condição e seu animal de estimação, que é um rato, chamado Toby.

Enredo

"Este é um romance de mistério e assassinato." (Cap. 7 - n.p. - E-book Kindle Unlimited)

Certo dia, Christopher encontra Wellington, o cachorro da vizinha, a sra. Shears, morto por um forcado. Amante dos animais, ele vai até o cachorro para segurá-lo e oferecer ajuda, caso ainda estivesse vivo. Entretanto, exatamente no momento que Christopher está abraçando o cachorro, a sra. Shears sai de sua casa e o flagra. Ela atribui a culpa da morte do seu cachorro a Christopher:

"— Mas que merda você fez com o meu cachorro?
Não gosto quando as pessoas gritam comigo. Fico com medo, achando que elas vão me machucar, ou me tocar, e nunca sei o que pode acontecer.
— Largue o cachorro — ela gritou. — Largue a porra do cachorro pelo amor de Deus.
Larguei o cachorro no gramado e recuei dois metros.
Ela se abaixou. Pensei que ela fosse pegar o cachorro, mas ela não fez isso. Talvez ela tenha reparado naquele sangue todo e não quis se sujar. Daí, ela começou a gritar de novo.
Coloquei minhas mãos nos meus ouvidos, fechei os olhos e fui me inclinando para a frente até que fiquei todo curvado, com a minha testa pressionando a grama. A grama estava molhada e fria. Estava gostosa." (Cap. 5 - n.p. - E-book Kindle Unlimited)

Em seguida, ela chama a polícia para resolver o caso e Christopher acaba sendo detido por agredir o policial. Não que ele tenha tido culpa ou maldade, mas, lembrem-se: ele não gosta de ser tocado e reage de forma diferente. O policial, desconhecendo sua condição, entendeu como agressão e o levou para delegacia.

O pai de Christopher o busca de madrugada e, quando vai para a escola no dia seguinte, ele conta para Siobhan o que aconteceu. Certa vez, ela sugere que ele escreva sobre coisas que ele gostaria de ler, assim, ele usou deste conselho da professora para escrever sobre a investigação do assassinato de Wellington.

Fã de Sherlock Holmes, Christopher decide usar a lógica e técnicas de investigação para desvendar o caso. Com isso, ele passa a romper barreiras de seu comportamento, como nunca falar com estranhos. Aos poucos, ele começa a ter contato com a vizinhança e até manter conversas mais longas com uma das vizinhas. Uma evolução e tanto para ele.

Quando seu pai descobre a investigação que ele vem fazendo, acontece uma briga daquelas e o pai pega o livro para que Christopher não continue mais com aquilo. Então, Christopher, com sua lógica toda, consegue achar brechas nas condições que o pai havia lhe imposto e continua, em segredo, a investigação do caso.

A partir deste momento, esta investigação tomará uma forma maior e complexa, pois, Christopher enfrentará seus limites e seus medos, além de descobrir segredos que envolvem sua vida que irão mudar tudo por completo. 

Durante todo o livro, narrado em primeira pessoa por Christopher, vamos nos deparando com as características desenvolvidas por indivíduos com a Síndrome de Asperger e enxergaremos através de seus olhos todas as suas dificuldades e modo de vida que os levam a agir como agem.

Através das atitudes de Christopher e da forma como ele enfrenta cada obstáculo da sociedade e de sua condição, podemos entender melhor como essas pessoas funcionam, por exemplo, o que o toque de outra pessoa causa no emocional dele. Ele usa constantemente uma vocalização, que ele denomina 'gemer', sempre que está com medo de algo e como forma de proteger-se, concentrando-se naquele som.

Ele tem 15 anos e tem verdadeira fixação por matemática, resolve cálculos complexos dentro de sua mente como forma de tranquilizar-se e tem foco absurdo quando o assunto é a matéria. Em contrapartida, é possível observar, ao longo do livro, a falta de socialização de Christopher, com dificuldades para a interação com outras pessoas. Ambos os casos são característicos dos Asperger.










Minhas Impressões

Não sabia nada a respeito do livro e meu interesse inicial foi porque ele aparecia na lista de livros do Desafio Rory Gilmore Reading Challenge. Então, pensei, vamos ler, não é tão longo.

E que surpresa incrível foi a leitura deste livro! Incrível mesmo, pois, além de ser uma história envolvente, com escrita leve, é muito rica em criatividade e informação útil. Através dos olhos do narrador, vamos conhecer como é viver com a Síndrome de Asperger, sendo o portador e também sendo os pais.

O autor, Mark Haddon, torna-se o personagem, é como se ele mesmo fosse o Christopher em sua condição. É uma coisa linda essa representação da personagem. O livro é todo o Christopher. A numeração dos capítulos segue a sequência dos números primos. Portanto, não estranhe (como aconteceu comigo) o livro começando pelo capítulo 2. Há a solução de problemas matemáticos e outros que ficam para o apêndice do livro, por recomendação de Siobhan. Gostei muito do resultado do livro. É o livro que Christopher escreve na história, contando suas descobertas na investigação e a sua evolução como pessoa.

"Números primos são o que resta quando você já jogou fora todos os seus semelhantes. Acho que números primos são como a vida. Eles são muito lógicos, mas a gente nunca descobre quais são as regras, mesmo se passar o tempo todo pensando nelas." (Cap. 19 - n.p. - E-book Kindle Unlimited)

O contraste entre pessoas que sabem lidar com indivíduos Asperger, a Siobhan, e quem não tem muitas estruturas emocionais para tal, os pais neste caso, é muito útil, pois, vai mostrar o quanto todo o universo ao redor dos Asperger é afetado por sua condição, não de uma forma ruim, longe disso, mas por fazerem os pais (que se importam muito mais) cobrarem muito mais de si no cuidado do filho e proporcionar o melhor possível. Percebi o sentimento de frustração dos pais de Christopher e é bem triste, de deixar com aquela lágrima no cantinho dos olhos.

Um aspecto até então desconhecido por mim é que indivíduos Asperger tem dificuldade em compreender a linguagem em sentido figurado. A comunicação deve ser cuidadosa e em sentido próprio da palavra para que você seja compreendido. Tanto que, no livro, Christopher nos fala que Siobhan é a única que coloca tudo detalhado para ele, explicando o que realmente espera dele e o que é para ser feito. E abaixo segue um trecho que mostra essa condição, assim como a falta de reciprocidade emocional:

"Acho as pessoas complicadas.(...)A segunda principal razão é que as pessoas sempre conversam usando metáforas. Aqui estão alguns exemplos de metáforasMorri de rir.Ela era a menina dos seus olhos.Eles saíram do armário.Tivemos um dia de cão.O cachorro bateu as botas.(...)Acho que isso deveria ser considerado uma mentira porque um cachorro não é como um dia e também não usa botas. E quando tento fazer uma imagem da frase na minha cabeça, isso me confunde todo porque imaginar uma menina dentro dos olhos de alguém não tem nada a ver com gostar muito de alguém e isso acaba me fazendo esquecer sobre o que a pessoa estava falando." (Cap. 29 - n.p. - E-book Kindle Unlimited)

Abaixo, mais um exemplo da não compreensão da comunicação de forma bem específica do personagem Christopher:

"Decidi que iria descobrir quem matou o Wellington apesar do Pai ter me dito para não me meter nos problemas dos outros.Isso é porque nem sempre faço o que me mandam fazer.E isso é porque quando as pessoas dizem a você o que é para fazer, geralmente é confuso e não faz sentido.Por exemplo, as pessoas vivem dizendo: “Fique quieto”, mas elas não dizem por quanto tempo é para ficar quieto. Ou você vê uma placa que diz “NÃO PISE NA GRAMA”, mas deveria dizer “NÃO PISE NA GRAMA AO REDOR DA PLACA” ou “NÃO PISE NA GRAMA DO PARQUE”, porque tem sempre um bocado de grama na qual se pode andar."  (Cap. 59 - n.p. - E-book Kindle Unlimited)

E, agora, como é que ele gosta que as pessoas se comuniquem com ele:

"Siobhan entende. Quando ela me diz para não fazer uma coisa, ela me diz exatamente o que eu não devo fazer. E eu gosto disso.Por exemplo, ela uma vez disse:— Você nunca deve dar um soco em Sarah nem machucá-la seja como for, Christopher. Mesmo se ela machucar você primeiro. Se ela machucar você de novo, afaste-se, aguente firme e conte de 1 a 50, então venha aqui e me diga o que ela fez, ou conte a um dos outros membros da equipe.Ou, por exemplo, como ela disse uma vez:— Se você quiser brincar nos balanços e já houver gente neles, você nunca deve empurrá-los para fora. Você deve pedir a eles para brincar um pouco. E então você deve esperar até que eles tenham terminado.Mas quando outras pessoas dizem o que você não pode fazer, elas não fazem assim. Assim, decido por mim mesmo o que vou fazer e o que não vou fazer."  (Cap. 59 - n.p. - E-book Kindle Unlimited)

Acho impossível, para qualquer pessoa que ler este livro, não ter algo em sua vida modificado por este livro. Ele desperta o mais profundo respeito por essas pessoas e pelos seus pais que possuem uma vida complexa, mas simples ao mesmo tempo, pois, a solução é a compreensão da condição do próximo e, acima de tudo, o respeito por tal. Em uma sociedade onde o padrão (físico, comportamental, opiniões etc) é o mais importante, fica mais do que compreendido o sentimento de não pertencimento a este mundo destas pessoas e de outras portadoras de outras síndromes.

É um livro que todos deveriam ler para elevar seu pensamento e sua opinião a um outro nível, é um exemplo de colocar-se no lugar do outro, de elevar sua empatia, uma história de perdas e mudanças que fazem o ser humano crescer em vários sentidos, principalmente na questão de eliminar o prenconceito.

Eu super recomendo esta leitura, é um livro fácil de encontrar em lojas virtuais e está disponível no Kindle Unlimited, ou seja, não tem desculpa para não ler. Garanto que foi um livro que mudou minha visão de diversos assuntos em vários aspectos e tenho certeza que você também será modificado (para melhor!) de alguma forma.

Nota da Leitura: 5.0 (de 5.0) e Favorito!

Dados da Edição:
Livro: O Estranho Caso do Cachorro Morto
Autor: Mark Haddon
Editora: Record
Número de páginas: 288
Ano de publicação: 2004

Beijos, Bel


Fonte consultada:
UNIVERSO AUTISTA. Asperger: Falta de interação e sociabilidade. Disponível em: <http://universoautista.com.br/oficial/2015/09/07/asperger-falta-de-interacao-e-sociabilidade/>. Acesso em 25 de fevereiro de 2018.

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